Antropologia 1. Cap (pto 1.3)

Publicado: maio 15, 2010 em Antropologia

1.3. O método: a marca do terreno. As transformações do objecto e método antropológicos.

 

v O método: a marca do terreno ______________________________________

 

____________________Método da Antropologia

O que define a ciência é o seu objecto, conteúdo e o seu método. O Método é a forma como a ciência investiga.

 

– Método do Trabalho de Campo ou método Etnográfico:

Método privilegiado dos Antropólogos, pois é o maior atributo da Antropologia para as ciências sociais. A etnografia foi o que definiu a prática da Antropologia., e confere a categoria profissional dos Antropólogos.

 

Etno / grafia

 

Povos  – Cultura                                   Escrita (recolha de dados) – Descrição

 

Trabalho de campo

 

A etnografia foi o que definiu a prática da Antropologia.

Implica a recolha de dados no terreno – observação directa – que implica a prática do trabalho de campo; Necessita recolher dados que lhe permita escrever a cultura ou povo que pretende estudar, ou seja, dependendo sempre de dados etnográficos.

Encara o trabalho de campo como uma obrigação, considerado o maior contributo da Antropologia para as ciências sociais.

No trabalho de Campo, há deslocação física do antropólogo para junto do grupo que está a estudar ou para os contextos da cultura em que está a estudar. Os dados são recolhidos no seu contexto, no local em contexto e no momento da acção. Observa os acontecimentos no momento em que ela acontece.

O que significa fazer trabalho de campo?

Significa um envolvimento com vários conceitos, como método (várias técnicas e vários argumentos).

 

O método Etnográfico ou trabalho de campo Já foi “só” da Antropologia. Há medida que o Séc XX foi avançando, deixou de ser só da Antropologia e passou a ser um método das Ciências Sociais.

 

________________________

 

Na 2.ª metade do Séc 19, (ainda não existia Trabalho de campo). Na década de 1860/70 – a Antropologia era chamada de Gabinete.

 

Na década de 1890 – Começou a haver a recolha de dados Antropológicos – começam a contactar directamente com os grupos.

 

 

Franz Boas (1858 – 1942)

 

Boas fundou a escola Antropológica, onde também estudaram grupos de pessoas que vão inspirar a Antropologia bem depois da sua morte.

 É o 1.º Antropólogo a fundar o método Etnográfico – do Trabalho de campo-  que sai do seu gabinete e vai para junto das tribos dos Kwakiutl, Innuit. Ele permanece aí e concentra-se na recolha de detalhes e dados sobre todas as práticas económicas, política, actividades rúdicas, isto é, concentra-se numa recolha minuciosa da cultura dessas tribos). Ele observa e toma notas, entrevista vários membros dessa cultura, tenta aprender a língua nativa, usando intérpretes (tradutores) e insiste que as actividades do grupo têm de ser observadas em toda a sua extensão. Tinha de ser um estudo da cultura in-log e não em termos comparativos.

Ele não se limitava em ensinar na academia. A formação que ele fornecia era composta por alguma teoria mas “obrigava” a pesquisa no terreno (era uma ordem procurar um local para fazer trabalho de campo) e ele fazia uma orientação efectiva à distância – por correspondência – aos seus alunos.

Margaret Mean e Ruth Benedit, são exemplos de algumas alunas de Boas, e o trabalho de campo que fizeram foi muito importante.

 

Por outro lado,

Quando se fala de Método Antropológico, fala-se de Malinovwski como o verdadeiro fundador do trabalho de campo e do Método Antropológico.

(Boas entrava e saia no trabalho de campo enquanto que, Malinowski ficou lá permanentemente durante 2 anos a fazer trabalho de campo.)

(Boas ensinou e incutiu para se fazer trabalho de campo e Malinowski sistematizou o método do trabalho de campo.)

 

Bronislav Malinowski (1884-1942) era um Antropólogo Britânico com formação em Matemática e Física. Converte-se à Antropologia numa fase posterior.

 

A diferença entre ele e Franz Boas é que o Malinowski foi o 1.º a sistematizar o método Antropológco – descrito no livro “Os Argonautas do Pacífico Ocidental” de 1922, considerado como uma bíblia do método Antropológico. Este livro foi o resultado de 2 anos de trabalho de campo nas Ilhas Trobriand (Papua da Nova Guiné e Ilhéus das Ilhas).

 

Com esta sua obra – Bíblia do método do Trabalho de campo – ele sistematiza o método. Teve a preocupação de definir quais são as características do método antropológico

 

Que características ele atribui? (características mais importantes)

 

  1. Impõe a regra: A presença prolongada junto do grupo cuja cultura vai estudar. É obrigatória a presença prolongada. É importante para os nativos se habituarem ao Antropólogo. Assim, quanto mais prolongada for, mais se percebe a cultura dos nativos, vendo essa cultura a partir de dentro, como se fosse mais um membro dessa cultura. Se ficar muito tempo chegaria o momento em que os nativos não davam pela presença do Antropólogo, pois já estava integrado e não ficavam incomodados com a sua presença – relação de horizontalidade. Portanto acaba por definir isso como um critério, em que o antropólogo tinha de conseguir sobreviver ao choque da cultura (deixar para trás a sua cultura e entrar dentro de outra nova – mas foi envolvida pior frustração).

 

 

  1. Aprendizagem e utilização da língua Nativa. Malinowski estava convencido de que não podia haver elementos (tradutores) entre o investigador e os nativos. O ideal era o investigador aprender a língua dos nativos, utiliza-la para se dirigir aos outros e tomar suas notas nessa mesma língua. Afirmava que para o Antropólogo ser objectivo tinha de ser assim. (Malinowski teve 2 anos para aprender, mas para dominar a língua estrangeira é necessário pensar na língua, e demora muito tempo até e atingir um grau razoável de conversação).

 

  1. tem de ter as mesmas condições. Quando se faz trabalho de campo com objectivo de integração dentro do grupo, não faz sentido que fique alojado nas casas coloniais, mas tem de ter as mesmas condições. Malinowski optou por viver numa tenda com as condições semelhantes, para poder fazer parte do grupo.

 

  1. Ele propôs fazer Observação participante, em que o investigador participava nos rituais, actividades de trabalho, em tudo o que pudesse participar, para conseguir ver “a cultura “.

 

  1. Para fazer um trabalho de campo completo, tem de se ter a prática de escrita de um diário, tomando notas de tudo, para que, quando mais tarde reler, se poder ter uma perspectiva diacrónica desde o momento de chegada e o momento de partida do seu estudo.

 

  1. O Antropólogo tem de adoptar a perspectiva Holista, isto é, perspectiva, abordagem global, observação da cultura em toda a sua amplitude. Quer isto dizer que o investigador não pode ficar preso à dimensão económica, ou à dimensão religiosa, mas tem de ver a cultura na sua globalidade, pesquisando em todos os pontos.

(Mas no entanto, pesquisar em todas a suas dimensões, 2 anos não chegam, não é possível estudar todas as suas perspectivas, dimensões e inter-relações. Hoje em dia já não se utiliza o todo)

 

Os ensinamentos de Malinowski foram amados por uns e detestável por outros – era perfeita mas, no entanto, deixou descrito “regras” que muitos tinham dificuldades em realizar e cumprir, era algo inatingível, isto porque seus alunos eram confrontados no terreno por dificuldades que o Malinowski não tinha descrito.

Exemplo: Evans Pritchard estudou os Nuer, e ficou desorientado porque nada lhe tinha acontecido positivamente, como tinha acontecido ao Malinovwsky. Neste caso, Os Nuer não o aceitaram.

Estas dúvidas foram desfeitas em 1967 (25 anos depois de Malinowski morrer) na medida em que foram publicados os diários de Malinowski. A obra “Um diário no verdadeiro sentido do tempo”, destrói os conceitos de Malinowski, pois não tinha muita correspondência em relação ao que ele tinha feito nas tribos. Malinowski em alguns dias fechava a sua tenda e não queria os nativos por perto. Chamou-os de Bludy Devil – que foi chocante, porque a Antropologia não estava habituada a ouvir estes preconceitos. Ele tinha sentimentos de frustração constante – o tal choque cultural.

Esse diário revelou que, aquele ideal de integração era mais um desejo do que uma realidade pois Ele tinha sentimentos de frustração constante – o tal choque cultural. Afinal sempre causou no Malinowski angústia, que acontecia aos antropólogos constantemente.

 

 

 

Técnicas aplicadas

no contexto do trabalho de campo Antropológico

 

– São técnicas de recolha de dados específicos.

 

                      – Observação Directa

                      – Entrevista qualitativa

 

ü Observação directa: Técnica antiga e a mais utilizada. O Investigador recolhe os dados através da observação do grupo e participa nas actividades de qualquer tipo do grupo. É uma observação científica, pois dá uso dos seus sentidos – audição e visão – na medida em que observa, toma suas notas, podendo ser chamado a participar em algumas actividades e interagir com o grupo.

– Dá uma visão de dentro a partir da própria cultura:

(1) Define o que se vai observar e

(2) o investigador tem que se auxiliar por uma grelha de tópicos a fim de o ajudar e não se esquecer. (Exemplo: quantas pessoas estão na sala, o que levam, o que disse, o que dizem, o que fazem, vestimenta, etc.).

Essa recolha de dados e a observação são, o que o Investigador escreve no Trabalho de campo, que posteriormente o utiliza para poder “reviver” / recordar o estudo.

É uma característica clássica do trabalho de campo – tem de se participar para ver o lado de dentro.

No entanto, cada investigador deve ponderar na possibilidade de participar ou não, se ele é desejável no grupo – visto ele ser um elemento estranho – e/ou se tem disponibilidade para participar. Normalmente, no trabalho de campo Observa-se mais e participa-se menos.

 

Outra técnica de recolha de dados sem a qual também não se faz trabalho de campo:

 

ü Entrevista qualitativa ou Etnográfica: Situação de pergunta e resposta em que há um indivíduo interessado em saber coisas e o outro responde abertamente. É uma entrevista aberta e de longa duração e, muito singular, pois o entrevistador é apenas um ouvinte aplicando apenas tópicos de conversa, e daí espera-se que o entrevistado fale longa e abertamente (exemplo: – Fale-nos sobre a sua vida profissional….).  O entrevistador tem de ter cuidado para que o entrevistado não se afaste muito do assunto, e caso este se for afastando, tem de o chamar ao assunto. As conversas nunca duram menos que 1:30h se podem ser repetidas (marcar outro dia) dependendo das características da pessoa.

O Entrevistador deve utilizar linguagem formal ou informal apropriada ao entrevistado (exemplo: se a pessoa for simples, o entrevistador deverá utilizar linguagem simples).

Na entrevista qualitativa recolhe-se dados profundos porque a pessoa fala calmamente e, alem disso tem tempo e espaço para falar ou explicar determinada coisa, sendo quase como uma terapia, ao ponto de que a pessoa vê o entrevistador como disponível para o ouvir.

 

A entrevista é diferente de um questionário, porque este, se baseia por pergunta e resposta escrita, tem uma durabilidade máxima de 30 minutos – não pode ir mais além disso, são quantitativos (extensão) e, além disso, o entrevistado não comunica com o entrevistador. Enquanto que,  a entrevista é qualitativa na medida em que se recolhe em profundidade aquilo que se pretende.

Saturação teórica – quando se começa a repetir muito certas coisas, o antropólogo se apercebe que já terminou a entrevista, e pode passar para outra análise ou outra técnica.

 

Por último, A entrevista qualitativa não se faz a qualquer pessoa comum. O investigador tem de escolher informadores qualificados, isto é, pessoas qualificadas com conhecimentos sobre os assuntos que queremos pesquisar.

Exemplo: Informador piscatório para falar sobre os assuntos da faina da pesca. Poderíamos recorrer a um biólogo, mas é certo que o pescador nos pode explicar melhor sobre o seu ofício.

 

v As transformações do objecto e método antropológicos_________________

 

­­­­­­­­­­­­­­_______________Transformações no método Antropológico

 

Hoje em dia é diferente dos métodos clássicos de Franz Boas e de Malinowski.

 

1.   O local de trabalho de campo:

A maior parte faz trabalho no seu país. Tornou-se trabalho de campo em “casa”, porque a diversidade cultural está presente nas nossas sociedades.

 

2.   Duração da permanência em campo:

Antigamente eram 2 a 10 anos. Agora a tendência é ir e voltar, pois há uma maior facilidade na deslocação (veículos) – pode ser 2 ou mais anos mas, não estão efectivos no terreno – desde que não se prejudique o trabalho de campo.

 

3.   Objecto de estudo “propriamente dito”:

A tendência era estudar a cultura de forma Holista (no global, no seu contexto). Agora, a perspectiva holista permanece mas não na sua globalidade. Há medida que o antropólogo foi se especializando em temas específicos, com a mesma perspectiva mas apenas num determinado aspecto (exemplo: Antropologia Política, Antropologia Biológica, etc.). Não significa que o antropólogo pesquise aquele tema apenas, pelo contrário, o Antropólogo percebe que nesse tema que está a pesquisar, existe também outros temas que estão em contextualização e que têm de ser encarados mas, não com a mesma importância do tema em questão.

 

4.   É cada vez mais Multisituada ou Multilocalizada:

Mesmo que seja sobre uma comunidade localizada, o antropólogo poderá ir para outro local a fim de procurar partes importantes que ocorrem em outros locais e tempo, com o intuito de perceber o pensamento da pessoa, família, grupo – visão do lado de dentro. É sempre um trabalho de descoberta, que foi o trabalho de campo que lhe mostrou. Percebe-se que já não há limites pois a globalização e a migração tornam a cultura é dinâmica – sendo responsáveis por este trabalho de campo Multisituado e Multilocalizado. (a partir de 1990)

 

5.   Autoridade Etnográfico ou do trabalho de campo:

A autoridade se traduz: ”Quem tem a última palavra? é o sujeito que se estuda ou o Antropólogo? (Interrogações dos anos 60)

 

Existem duas perspectivas: – Perspectiva EMIC – Nativ

                                                          – Perspectiva ETIC – Antropólogo

 

      – Perspectiva EMIC: Para alguns Antropólogos mais conservadores clássicos, a principal voz é do Nativo. Para se escrever tem de ser sempre pela 3.ª pessoa e o antropólogo tem de se colocar numa posição de retaguarda, não se mencionar.

 

     – Perspectiva ETIC: Para o trabalho Etnográfico ser bem percebido, tem de ser traduzidos pelo Antropólogo – dicotomia datada.

 

6.   Reflexividade:

O trabalho de campo tornou-se profundamente reflexivo, em que se caracteriza pela proximidade entre o sujeito e o investigador. A própria investigação no trabalho de campo constrói a relação de proximidade entre o sujeito e o investigador. (A partir de 1980).

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